Rita

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Existe um limite entre aquilo que se é e aquilo que se vê. Avatares são sempre bonitos e mesmo assim Rita era daquelas que se espremiam no mundo como se ali não houvesse lugar pra ela.
Ela era tola, feia, pequena e não fazia parte do seleto grupo de pessoas que nascem com a bunda virada pra lua. Descobriu isso no dia em que conheceu seu pai. Senhor polido, classe média alta. Na verdade um velho barrigudo e miserável que tinha no dinheiro toda a auto afirmação necessária para justificar seu comportamento egoísta.

Aquele velho olhara pra ela com cara de desapontamento. Se Rita tivesse cara de rica provavelmente teria ganho um abraço e um cheque com dinheiro pra pagar suas dívidas. Mas Rita era preta, cabelo duro e nariz de taboca.   Difícil acreditar que alguém como ela era filha do senhor polido, velho barrigudo, também preto e com nariz de taboca, porém rico.

Rita era daquelas que acreditavam nos princípios fundamentais: amor, esperança, felicidade... Mal sabia ela que riqueza proveniente de trabalho duro é ilusão que só pobre nutre no coração.

Ela confiava nas pessoas, apesar de tudo ainda confiava. E não se considerava uma pessoa sofrida. Ela não se perdia na autocomiseraçao. Aprendera com o cristianismo imposto pela sua falecida avó que Deus foi sempre muito bondoso, que ela deveria agradecer por qualquer coisa que lhe fizessem...

Deveria agradecer por sua mãe ser a lavadeira sem dentes na boca, por ter nariz de taboca e por não ter pai.  Há 20, 30 anos atrás as mulheres ainda não precisavam estudar, dente podre era arrancado e só. A vida era completa com isso e sucesso se resumia a casamento com marido bêbado, que desse uma surra no filho por achar que ele era viado. Hoje em dia é que as coisas mudaram e Rita, preta e com o nariz de taboca que tinha, nunca ia arrumar um marido sóbrio que lhe sustentasse. Desde pequena sua mãe havia lhe instruído quanto a isso. E a boa filha da lavadeira resolveu estudar pra ser gente.  

Ela não era inteligente, mas tinha força de vontade, conseguiu terminar o ensino médio e era a primeira da turma.  Seu bom rendimento devia-se ao fato de a maioria das avaliações terem sido em forma de seminário e Rita tinha boa memória, sua avó era crente doente e a ensinou desde cedo como gravar as principais passagens bíblicas. Rita aperfeiçoou este método e conseguia gravar grandes parágrafos sobre anatomia humana, II guerra mundial e geografia espacial dentre outros... 
Ela tinha tudo pra conseguir cursar uma universidade menos estômago pra continuar almoçando farofa com ovo. Ovo este comprado através do suor de uma mulher de 40 anos de uma beleza incrível escondida por um cabelo duro sem relaxamento e por pés rachados. Não bastava sofrer na vida por ter nascido do lado obscuro da sociedade, tinha que trazer dor no coração, tinha que ter um olhar triste... E foi com esse olhar triste, vista que não saia de sua cabeça, que Rita foi procurar trabalho. Não tinha curso de atendente, não sabia mexer no Excel, nem falar inglês... Restou somente o balcão de uma loja de cosméticos, era isso ou um emprego de faxineira que pagava 20 reais a mais, mas essa segunda opção traria um desgosto sem tamanho a sua mãe. Rita preferiu a loja.  “Pobre metida , não quer limpar o chão”- pensou a moça da agência de empregos.

Só Deus sabe como é difícil conseguira atenção de um cliente quando se é uma vendedora feia. A timidez também atrapalha, mas a feiúra é assustadora, sobretudo num lugar onde a beleza deve ser vendida. Além disso, havia certa metidez nas vendedoras bonitas e elas pisavam em cima das feias, pois ficavam com as boas comissões, saiam pra noitadas e arrumavam namorados com carro.  
Mesmo assim aquele era o emprego dos sonhos, Rita recebia um salário mínimo e ela nunca tinha visto tanto dinheiro junto. Era o suficiente pra comprar uma feira e pagar uma manicura que lixasse os pés de sua mãe. A manicura era importante porque Rita acreditava que conseguiria tirar o olhar de tristeza daquela mulher se provasse pra ela que ainda era bonita. Mas isso não era suficiente e a dor de saber isso não tinha cura. 
Rita não sabia responder sobre seus gostos, pois não os tinha. Não ouvia música, nem tinha uma cor favorita. A vida nunca lhe deixou escolher isso antes de ter um emprego. E mesmo depois que teve, estava tão acostumada que já não fazia diferença. Seus sonhos de consumo foram realizados quando conseguiu comprar um peru no natal. É claro que o peru depois de preparado não saiu tão bonito quanto no comercial, mas só o prazer de ter um já servia. E aquilo tudo era felicidade. 
E todas as noites sentadas em um sofá velho às duas mulheres assistiam a novela das oito numa TV comprada por 24 parcelas de 80 reais. Não haviam visitas naquela casa e o portão ainda não fora trocado.
Durante algum tempo Rita e sua mãe pensaram em aceitar Jesus, mas até Deus parecia desgostoso com o dízimo pequeno que suas novas filhas levavam a “Casa do Pai”. Toda a insatisfação era por conta do pastor recém casado e com uma Hilux,cara legal nascido e criado no mesmo buraco que rendiam lixeiros, faxineiras e pedreiros a cidade. 
Depois de dois anos pagando a televisão e o fogão novo, finalmente chegara à vez do computador.  Seria a maior aquisição já feita por aquelas duas mulheres. Um positivo Celeron’D com 80 Gb de HD e 1 de memória RAM. Nem Rita nem sua mãe entendiam nada daquilo, só de ser computador já servia. Era um mundo novo, significava MSN e Orkut. Depois de instalado aquele bicho mordia, era difícil associar o movimento do mouse a seta na tela. Uma dura batalha travada pela mãe de Rita durante longos meses. Além disso, tinha a mensalidade da internet que somada ao valor da prestação comia mais de 30% do salário da balconista. Mesmo assim valia a pena. Tudo ali valia à pena.   Até mesmo a vida sofrida. Uma merda quando só se conhece merda faz o mesmo sentido. Era tudo tão melhor agora...
Para os vizinhos aquelas eram duas loucas insociáveis. Ambas andavam com a cabeça baixa falando sozinhas. Costume que parecia um traço de família, mas na verdade era apenas vontade de se espremer no mundo. As duas compartilhavam desta mesma vontade. Não havia lugar ali mesmo e até o ar parecia empurrar pelos dois lados. É por isso que todos estranharam quando o convite do Orkut chegou. A foto do perfil da mãe banguela era assustadora e foi motivo de piada por bons tempos sem que as novas usuárias do universo digital percebessem. Quanto à filha tudo era novidade, mas as fotos de perfil nem eram tão feias assim. Ela logo percebeu que se virasse o rosto um pouquinho de lado o nariz de taboca nem aparecia. Na verdade as fotos de Rita não condiziam muito com a realidade visto que todas elas foram tiradas na semana em que seu cabelo tinha sido relaxado e devidamente escovado.
Com o passar do tempo o universo dos blogs havia sido descoberto. E foi então que Rita resolveu criar um. Não havia tema definido, apenas uma vontade de ser vista, ela achava que seria instantaneamente vista por várias pessoas. Seu primeiro post resumira-se a uma frase: “O dia estava extremamente cálido embora fosse uma manhã de outono...”. Aquela frase era de “Crime e Castigo”, o único grande romance que ela havia lido. E era a única frase que ela lembrava daquele livro. Lembrava também da semelhança entre sua mãe e a mãe de Sônia. Ela chorou ao ler as páginas onde Dostoievski descrevia o sofrimento daquela mulher após a morte do marido. Era uma semelhança ínfima, mas ainda assim há sempre uma semelhança no sofrimento por mais distante que ele seja. É claro que ninguém leu aquilo, mas como Rita não sabia que era possível ver as estatísticas ela continuou achando que era lida por muitas pessoas. Foi então que ela começou a falar sobre acontecimentos do seu dia a dia. Sobre como ser balconista, preta era pior que ser balconista branca. E sobre como viver era difícil daquele lado da cidade. Ela falou sobre como sua mãe tirava mancha de gordura das roupas e contou como foi à experiência de preparar um peru de natal pela primeira vez.
Todo o seu dia era retratado naquilo. E já fazia parte da rotina de Rita, chegar em casa, jantar e descrever como foi seu dia. Todos os dias durante todo o ano de 2010 ela fez isso. E por volta da 116ª postagem uma feminista com doutorado em Literatura em Língua Inglesa, Também blogueira, chegou até o blog da Rita clicando em “próximo blog” no Navbar do Blogger.  Ela ficou encantada com o texto do dia. Sutil e esplêndido, contava como era difícil fazer com que uma madame escolhesse o tom de loiro ideal para o cabelo. Na verdade o que atraiu a feminista era o trecho que dizia: “ela não me achava boa pra dar conselhos sobre pintura de cabelo. Deve ser porque eu sou preta e tenho cabelo duro...” . Aquilo era simples e de uma clareza incrível, retratava em poucas palavras o quanto a sociedade é desigual. No outro dia a feminista dedicou uma postagem em seu blog somente para a divulgação do blog de Rita. Choveram acessos. Boa parte dos leitores da Feminista passaram pelo blog de Rita aquela manhã e muitos deles se encantaram com a pitada de humor com que eram descritas as histórias. O humor era involuntário da parte de Rita, ela simplesmente descrevia como era seu dia a dia da maneira como sua mãe lhe contava histórias. Para um bando de estudantes universitários tirados a formadores de opinião isso era humor, mas pra Rita era simplesmente seus costumes, linguagem do dia-a-dia.
Rita ganhou 95 seguidores em apenas um dia. Ela não percebeu o que isso significava. Ela nem foi consultada quanto à divulgação do seu blog. Só descobriu sobre isso através dos comentários de suas postagens. Ela não cabia em si mesmo de tanta felicidade e até sua mãe achava Rita importante e contava aos clientes sobre o “saiti” que sua filha tem. 
Rita se empenhava cada dia mais por contar suas histórias. E com o passar do tempo seu público ia aumentando gradativamente. As histórias continuavam engraçadas e boas, apesar de se sentir importante Rita nunca deixara a posição de insignificância a qual era encarregada neste mundo. Seu salário continuava mínimo e sua mãe continuava lavando trouxas de roupa suja. E as suas colegas do trabalho continuavam a humilhá-la. Nenhuma delas era blogueira e se limitavam ao MSN e ao Facebook.  
Rita naquele ano conseguiu acertar no preparo do peru. E ela escreveu isso no blog e recebeu 45 comentários quase todos com “kkkkkkkkkkkkkk”. Ela comprou uma prancha de cabelo. E continuou a escrever no blog. Nenhum homem olhava pra ela. E Rita continuou a escrever no blog. Sua mãe adoeceu. E Rita parou de escrever no blog.
Sua mãe foi diagnosticada com câncer no colo do útero. Já em fase terminal. Isso não teria acontecido se ela tivesse feito preventivo desde cedo. Mas pobre não trata doença que ainda não veio. E agora aquela mulher ia morrer sem ter descoberto a beleza que tinha. Sem ter sorrido pra vida como se deve sorrir. E Rita ficaria só. 
Mas enquanto a morte não vinha as duas ficavam ali a fingir que a vida seguia da mesma maneira de antes.   Sua mãe não foi tratada como deveria ser. O tratamento de câncer do SUS não era completo e os médicos pareciam não ter boa vontade com pacientes terminais. Havia um ‘tico’ de economia nisso. Se o cara vai morrer mesmo pra que gastar recurso do governo tentando salvar? Era bastante racional e pouco humano. 
A doença de sua mãe serviu pra que Rita tomasse conhecimento de sua posição no mundo. Depois de um episódio onde sua mãe não conseguiu morfina e passou noites em claro sentindo muitas dores no corredor de um hospital. Rita finalmente percebeu o quanto esse mundo é injusto.  Passou a odiá-lo em vez de agradecer a ele.
Três meses depois sua mãe faleceu. O motivo já não era novo e todos os vizinhos ao dar os pêsames pensavam consigo “Demorou até demais”.  Rita recebeu todo aquele pseudo apoio com muita educação. Pela primeira vez na vida ela sentiu vontade de gritar algo como “fodam-se todos vocês!” . Ela conseguiu uma semana de folga. Nenhum colega de trabalho foi visitá-la. 
Ela aproveitou a revolta pra escrever em seu blog. Contou numa única postagem como havia sido todo aquele tempo em que esteve longe. É claro que sem atualizações muitas pessoas pararam de ver o blog de Rita. Mesmo essa postagem rendeu vários comentários, pessoas que apararam ela com mensagens de motivação pessoal todas as baboseiras que os amigos dizem. Ela muito amparada naquele meio. Apoio que não havia na vida real. Aquilo era tão bom. Há algo de impessoal, através desse universo de blogs e de internet. O modo como as pessoas parecem sempre honestas caridosas e comovidas com o sofrimento alheio. O modo como as pessoas sempre são bonitas, educadas, cheirosas... Sem nariz de “taboca” era Rita ali. Não era Rita, era uma menina preta com certo grau de instrução que sabia contar histórias bem humoradas. 
A vida seguia mais triste do que antes. Agora a tristeza de Rita tinha nome e se chamava morte. Rita passava o dia trabalhando, chegava em casa  trocava de roupa pegava um pão com manteiga e café com leite e iniciava uma jornada de horas a fio escrevendo sobre seu dia e lendo blogs de seus leitores. Ela começou a fazer amizades, criou um Facebook povoado de universitários sabidos que ela não conhecia pessoalmente. 500.000 visualizações. Seu blog estava mesmo famoso. 
E aquilo continuava não sendo vida. Até o dia em que a Veja a convidou pra fazer uma matéria. Ela aceitou a oportunidade bastante orgulhosa de si mesma. Tirou fotos, deu a entrevista, contou sobre sua mãe sobre a história do peru. E uma matéria de 3 páginas foi publicada contendo trechos de seus textos. Só depois com a revista em mãos que Rita foi mostrar ao pessoal do trabalho o seu blog. “Balconista Blogueira vira sensação da internet”. Todos na loja  ficaram boquiabertos com o feito da preta feia. Instantaneamente ela ganhou elogios de suas coleguinhas lindas. Pena que Foi criticada em seu blog, os estudantes tirados a blogueiros progressistas fizeram comentários a cerca de toda a hipocrisia da revista e de como gente como ela era subjugada pelo Partido da Imprensa Golpista (PIG).  Rita não sabia muito o que aquilo significava mas era crítica vinda de seus amigos.  Ela respondeu triste dizendo que estava arrependida de ter autorizado a matéria e que de agora em diante pediria a opinião deles antes de expor sua imagem.      
 Passado este episódio a vida seguia. Ela passou a ser levada em consideração por algum tempo, mas isso logo acabou. Como não tinha mais despesas com manicura e remédios para sua mãe e ela não fazia mais feira, visto que só comia pão com manteiga e café, Rita conseguiu economizar 1000 reais no fim do ano. Esse dinheiro somado ao décimo terceiro salário compunha uma fortuna nunca antes vista por aquela mulher. Era tanto que ela nem conseguia pensar em algo pra gastar. Abriu uma poupança e foi juntando mais. 
Aos poucos Rita ia se abrindo pra vida. Seu cabelo agora andava sempre escovado e ela de vez em quando era convidada para ir a um barzinho com as colegas. 

Desde que ela começou a por a culpa no mundo viver já não doía mais. Seu pai também morreu, ela nem foi ao enterro. Ficou bastante feliz em saber que nenhum dos outros filhos foi e que o velho morreu num hospital particular amparados por bons médicos e enfermeiras sem nenhum parente por perto. A herança composta por 17 casas , 5 carros, uma fábrica de bolsas e uma poupança rechonchuda logo seria motivo de disputa judicial. Rita não queria um centavo disso, se sentia bastante rica com o dinheiro que conseguiu juntar. 

Alguns anos depois a loja onde ela trabalhava faliu depois de um escândalo envolvendo o dono da loja, a esposa e seu amante que denunciou o envolvimento do rival com crimes de sonegação fiscal. Rita logo conseguiu um novo emprego dessa vez como recepcionista de uma clínica oftalmológica. O porteiro do prédio onde a clínica funcionava logo pôs os olhos em cima da nova funcionária que correspondia a altura toda investida que recebia. Ele também era feio, preto e tinha nariz de taboca o que confirma o ditado que diz que pra todo pé cansado há um chinelo velho. Aos poucos o blog foi deixando de ser atualizado visto que Rita agora tinha ocupações mais prazerosas durante á noite. Mas mesmo assim o conteúdo daquele blog valia ouro e isso garantiu que muitas pessoas passassem por ali.  Rita casou, gastou o dinheiro da poupança trocando os móveis e teve uma filha preta, feia e com nariz de taboca. A menina foi chamada de Antônia, mesmo nome de sua falecida mãe. E diferentemente de Rita, conseguiu cursar uma universidade quando completou o ensino médio.





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1 Comentários para Rita

1 de abril de 2012 07:08

^^ teremos uma escritora na família...

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