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Diário Crítico Reflexivo




...sobre a disciplina de Ética em Computação...



Eu adquiri o hábito da leitura no fim do ensino fundamental, comecei com Huxley e distopias semelhantes a Admirável Mundo Novo. Eu adorava o tom crítico daquelas obras e comecei a partilhar do mesmo sentimento de “humanidade perdida” que era expresso nelas. Não demorou muito até eu achar que o pouco conhecimento que tinha valia muito e me tornava superior. 

No ensino médio mudei para uma escola maior, com uma biblioteca ampla que comecei a frequentar no segundo ano. Lá descobri, dentre outras obras, uma antologia de filosofia, e na prateleira mais abaixo, um livro chamado “O Pensamento Antigo”. Esse ultimo ficava meio escondido, perto dos livros empoeirados que falavam sobre a trajetória de Assis Chateaubriand. Seu conteúdo era basicamente sobre os filósofos antigos, dentre eles Aristóteles, foi naquele livro que eu vi pela primeira vez as palavras “Ética a Nicômanco”. Gostei bastante do conteúdo que havia naquele livro, especialmente da sessão sobre Aristóteles. A medida em que eu lia, termos como eudemonismo, foram aparecendo, mas eu era muito nova pra realmente entender o que essas coisas todas são. Eu, um amigo e um professor de filosofia monopolizamos os empréstimos daquele livro durante aproximadamente dois anos. Na verdade nem era um monopólio já que ninguém mais se interessava. Eu e meu amigo queríamos aquele livro, procuramos por ele na biblioteca municipal, na biblioteca da UEFS e na internet, mas não encontramos. No fim do terceiro ano, chegamos a cogitar um pequeno furto que passaria despercebido, visto que ninguém se importava com o livro, mas a nossa consciência não permitiu. Ironicamente, ao procurar pelo livro percebemos que ele poderia ter sido furtado por outra pessoa, provavelmente o professor, já que além de nós dois era o único que tinha um histórico de empréstimos daquela obra.

No fim do ensino médio eu já havia desfeito do pensamento de superioridade que me rondava, acabei percebendo que não importa o quanto você sabe, sempre será muito pouco diante de tudo o que existe. Passei a admirar Sócrates e a importância de saber que não se sabe que ele tanto pregava. Mas por que eu estou contando isso? Porque me pediram pra fazer um diário crítico reflexivo sobre minhas impressões a respeito da disciplina de Ética em Computação, e eu não sabia como começar, então resolvi contar qual a minha relação com o estudo da ética antes dessa disciplina.

É óbvio que o que contei diz respeito somente à definição formal, houve mais coisas, porque ética é algo que faz parte do ser humano e que está diretamente ligado as experiências cotidianas, mas eu teimava em não enxergar isso. Perceber como cada fato cotidiano é realizado mediante a ética de cada um foi à primeira coisa que aprendi com a disciplina em questão.

Eu acreditava veemente na distinção entre ética e moral. Pra mim, a primeira se referia aos princípios, ou as ações, do individuo que são movidas somente pela sua razão. E nesse contexto, moral seria a ética do individuo somada as influencias externas, aos costumes e a obediência aos costumes da vida em sociedade. Ao longo das discussões em sala de aula eu fui percebendo o quanto à ideia de um pensamento que não é influenciado pela vida em sociedade é sem sentido. Eu sempre acreditei na influencia dos fatores externos e da obediência aos costumes, mas nunca liguei isso a conceito de ética. Depois de finalmente associar todas essas coisas, ética e moral parecem ser a mesma coisa, e tudo é caráter.

Outra coisa importante foi o eudemonismo posto de maneira sutil, considerando a crença nas demais virtudes. Eu nunca “botei fé” na felicidade como um bom objetivo porque sempre achei que objetivos tivessem que ser plenos. Finalmente as coisas começaram a fazer sentido depois da definição de vícios e virtudes e da explanação sobre cortá-los e exercitá-los respectivamente. Eu vi meus colegas discutindo sobre ética, alguns deles, pessoas com as quais eu conversei sobre diversos assuntos, mas nunca sobre ética de maneira explicita. E foi então que eu percebi que conversar sobre a conduta do coleguinha é uma discussão sobre ética e possuía conceitos de ética aplicada do início ao fim. 

Eu me convenci finalmente de que minhas ações são impelidas, em boa parte, por meus princípios e meus instintos e que nesse contexto minhas virtudes devem ser exercitadas. Só assim eu serei alguém cuja inclinação maior é para o bem. Eu sabia de todas essas, toda essa necessidades, mas só enxerguei sua aplicação na vida real com as discussões em sala de aula.

Quando eu leio um livro sobre filosofia eu tomo conhecimento sobre uma teoria, uma ideia que não foi minha com conceitos que posso em grande não entender adequadamente. Quando eu me relaciono com o mundo, seja diretamente com as pessoas ou tendo um computador como intermediário, tudo o que acontece Poe a prova meus valores e virtudes e algumas coisas estimulam meus vícios, e tudo isso é ética. São os conceitos mais rebuscados que podem ser percebidos. Exercitar a catarse nossa de cada dia, é liberar a ira e a indignação, mas também é refletir sobre tudo o que sou. Fazia tempo que eu não lembrava mais disso, desde que eu deixei de ser católica e perdia a obrigação de me confessar foram poucas as vezes que parei pra refletir sobre tudo o que acontece. Presenciar discussões sobre ética aplicada, ética profissional, e sobre a conduta no universo da internet me fez analisar como me comporto nesses aspectos. Acabei identificando pontos de mudança, e comecei a tentar sanar isso.

Num curso onde a grande maioria das discussões são sobre exatas e coisas objetivas sem meias verdades, dar espaço para a expressão individual perante assuntos cotidianos é indispensável. Enfim, ensino de filosofia deveria ser obrigatório sempre. Reflexão deveria ser obrigatória sempre. Qualquer pessoa está apta a isso, mas quase ninguém faz. A verdade é que filosofia está entre a gama de conhecimentos importantes que são desprezados. As pessoas mais inteligentes que conheço não desprezam isso. De qualquer forma, me sinto muito feliz quando escuto as pessoas falando sobre esses assuntos. Deveria haver uma disciplina nesse tom a cada semestre da graduação.





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